Meteoritos e os segredos que revelam

Como fragmentos vindos do espaço ajudam a reconstruir a história profunda do Sistema Solar e da Terra.

A Terra, o planeta onde vivemos, começou sua história há cerca de 4,56 bilhões de anos, em meio a um turbilhão cósmico que deu origem a todo o Sistema Solar.
Esse processo teve início com o colapso de uma enorme nuvem de gás e poeira. À medida que o material se concentrava, formou-se o Sol em seu centro e, ao seu redor, os planetas, suas luas, além de inúmeros asteroides e cometas.

Alguns desses corpos maiores, ainda jovens e aquecidos, passaram por um processo conhecido como diferenciação. À medida que o interior desses astros começou a fundir parcialmente, os materiais metálicos ricos em ferro e níquel se separaram dos materiais rochosos, migrando em direção ao centro e formando o núcleo.
O material rochoso remanescente deu origem ao manto, e, em corpos mais evoluídos, processos posteriores de fusão e resfriamento levaram à formação de uma crosta, uma camada superficial distinta e mais heterogênea.

Meteorito e corpo planetário – esquema ilustrativo da interação entre corpos do Sistema Solar. A maioria dos meteoritos chega à Terra como pequenos fragmentos, mas seus materiais registram processos que ocorreram em corpos maiores, como asteroides e protoplanetas.

A Terra passou por esse processo. É por isso que hoje ela apresenta uma estrutura interna organizada em núcleo, manto e crosta.

Crosta, manto e núcleo – representação esquemática da estrutura interna de um corpo planetário diferenciado. A separação entre núcleo metálico e manto rico em silicatos resulta de processos de fusão e diferenciação, e não apenas da densidade dos materiais.

A maioria dos asteroides e cometas, no entanto, não atingiu tamanho ou temperatura suficientes para se diferenciar. Muitos deles permaneceram semelhantes ao material original do Sistema Solar.

Por isso, estudá-los é como observar diretamente a infância do nosso sistema planetário. Cada meteorito preserva informações valiosas sobre os materiais e processos que atuaram nos primórdios da formação dos planetas, permitindo que os geocientistas reconstruam capítulos fundamentais da história da Terra.

A maior parte desses corpos permanece distante do nosso planeta. Ainda assim, em alguns momentos, a órbita de um asteroide cruza a órbita da Terra. Quando isso acontece, fragmentos podem atravessar a atmosfera e alcançar a superfície terrestre.

Esses fragmentos são chamados de meteoritos. Em impactos de maior energia, podem também dar origem a crateras de impacto, marcas duradouras deixadas na crosta terrestre.

No Brasil, estruturas de impacto meteorítico são raras. Entre elas está a Cratera de Colônia, localizada no distrito de Parelheiros, na cidade de São Paulo, um exemplo de como eventos cósmicos antigos ainda influenciam o território que habitamos hoje.

A maior parte dos meteoritos, no entanto, chega à Terra na forma de pequenos fragmentos, sem produzir crateras expressivas.

Cada meteorito encontrado carrega pistas sobre o corpo de onde se originou. A partir de sua composição e estrutura, é possível inferir processos que ocorreram há bilhões de anos em diferentes regiões do Sistema Solar.

De modo geral, os meteoritos podem ser classificados em três grandes grupos.

Os meteoritos rochosos são os mais comuns. À primeira vista, podem se parecer com rochas terrestres, o que faz com que muitas vezes passem despercebidos. São formados principalmente por minerais como olivina e piroxênio e se dividem em dois tipos principais.
Os condritos são meteoritos pouco alterados, que preservam características do material primordial do Sistema Solar, como os côndrulos, pequenas esferas minerais formadas no espaço.
Já os acondritos passaram por processos de fusão e recristalização em seus corpos de origem, adquirindo texturas semelhantes às de rochas ígneas.

Os meteoritos ferrosos são formados predominantemente por ligas de ferro e níquel. Sua alta densidade facilita o reconhecimento, o que explica por que são frequentemente encontrados por pessoas fora do meio científico.

Os siderólitos apresentam uma combinação de material rochoso e metálico. Um exemplo marcante são os pallasitos, que exibem cristais de olivina incrustados em uma matriz metálica, formando estruturas visualmente impressionantes.O Brasil abriga meteoritos que são verdadeiras raridades. Um exemplo é o meteorito Santa Luzia, encontrado em 1919, o segundo maior já registrado no país, atualmente exposto junto a outros importantes exemplares no Museu de Geociências da USP, aberto à visitação.

Meteorito Itapuranga exposto no Museu de Geociências da USP. Fragmentos como este preservam informações sobre os materiais e processos que atuaram nos primórdios do Sistema Solar. Foto: Cecília Bastos / USP Imagens – Jornal da USP.

Esse é apenas um entre os mais de 70 meteoritos brasileiros catalogados, número que continua crescendo graças à curiosidade de pessoas que encontram esses fragmentos e os encaminham para estudo.

Esses materiais são analisados por geocientistas por meio de observações de campo e técnicas laboratoriais, e muitos deles são preservados em museus e coleções didáticas, onde cumprem um papel fundamental na formação acadêmica.

Na Seção de Materiais Didáticos do IGc-USP, há uma coleção didática de lâminas delgadas de meteoritos, utilizada nos cursos do Instituto. Nessas lâminas, é possível observar ao microscópio texturas e minerais formados sob condições extremas, ampliando, em escala microscópica, a compreensão desses fragmentos vindos do espaço.

Compreender os meteoritos é também compreender a nossa própria história. Eles são fragmentos do mesmo processo que deu origem ao nosso planeta e ajudam a revelar como a Terra se formou e evoluiu ao longo do tempo geológico.

Sobre alguns termos utilizados:

Silicatos
Grupo de minerais formados principalmente por silício e oxigênio, que constituem a maior parte das rochas da Terra e de outros corpos rochosos do Sistema Solar.

Diferenciação
Processo pelo qual um corpo planetário aquecido passa a se organizar internamente, separando materiais metálicos e materiais rochosos em camadas distintas.

Condritos
Tipo de meteorito rochoso pouco alterado, que preserva características do material primordial do Sistema Solar, como os côndrulos.

Acondritos
Meteoritos rochosos que passaram por processos de fusão e recristalização em seus corpos de origem, adquirindo texturas semelhantes às de rochas ígneas.

Lâmina delgada
Preparação muito fina de uma rocha ou mineral, utilizada para observação ao microscópio, permitindo identificar minerais e texturas.

Texto elaborado no âmbito do Projeto PUB 2025–2026 – “Consolidação e expansão da coleção didática virtual do IGc-USP”, pela estudante Giovanna Batelli Cardoso, sob coordenação da Profa. Lucelene Martins.
Seção de Materiais Didáticos – Instituto de Geociências da USP.

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